quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Grandes Trans do Iluminismo #3

Princesa Seraphina (1732?), drag queen

Não existe nenhuma imagem retratando Princesa
Seraphina. Contudo, os vestidos femininos
da época, como este da ilustração acima,
ram peças suficientemente caras para justificar um
barraco que terminasse nos tribunais.
Amiga da vizinhança, proxeneta e barraqueira

Para todos seu vizinhos de bairro, John Cooper era simplesmente a Princesa Seraphina, de modo que muitos nem soubessem que tivesse outro nome. Uma figura como ela só se tornou possível por uma conflusão de peculiaridades da sociedade inglesa da primeira metade do século 18, quando se popularizaram tanto as molly houses - os primeiros "bares gays", casas que serviam de pontos de encontro clandestinos, em geral aos domingos, serviam bebidas, cantavam baladas, e era de rigor tratarem-se uns aos outros somente por apelidos femininos. Também foi o auge da popularidade dos bailes de máscaras, ou "mascaradas", onde ninguém era o que parecia ser, e ninguém era de ninguém. Mas o contexto que trouxe a público a existência da Princesa Serafina foi o de um julgamento, a que precisou comparecer.
Não era réu, pelo contrário: era a acusação.

Quero meus direitos
O processo dava conta de que em 5 de julho de 1732, um certo Thomas Gordon foi acusado de roubo por um certo John Cooper. Os dois caminhavam até um “lugar secreto”, onde Gordon ameaçou Cooper com uma faca, exigindo que trocassem de roupas e lhe passasse suas jóias. Se Cooper fizesse queixa, Gordon ameaçou acusa-lo de sodomia. No processo consta que foram levadas “roupas masculinas de fino trato”. Mas Cooper deu queixa. Testemunhas foram chamadas.

No processo, uma lavadeira corroborou que Gordon era mau-caráter e referiu-se à Cooper como Princesa Serafina, lamentando que “um simples caso de sodomia precisasse ir à julgamento”. Gente do comércio do bairro, incluindo os próprios empregadores de Cooper, declararam que conheciam bem “Sua Alteza”, e testemunharam do mau caráter de Gordon. Uma testemunha disse que:

“Já a vi várias vezes em roupas de mulher, ela costuma usar um vestido branco e capa escarlate, com o cabelo frisado sobre a testa, e então ela balança o leque e faz tão finas cortesias, que você não a tomaria por outra coisa que não uma mulher; ela gosta muito de bailes e mascaradas, e sempre escolhe aparecer neles em roupas femininas, para ter a satifação de dançar com excelentes cavalheiros. Sua Alteza vive com o Sr. Tull no Strand e o chama de Mestre, pois serviu-lhes de enfermeira para ele e a esposa quando estavam doentes. Nunca soube que ela tivesse outro nome que não fosse Princesa Serafina”.

Todos as testemunhas referiam-se à John Cooper como “ela”; davam conta de sua profissão de criado para cavalheiros do bairro, o viam com frequência em roupas femininas e tudo indica que era tolerado deste modo. O que transparece da situação toda é não somente o fato de Cooper/Serafina ser aceito pela sua comunidade, ser plenamente conhecido em sua identidade feminina, como o de que se sentia confiante o bastante para ir à justiça e não temer se expor. Isso se dá, provavelmente, ao fato de ter bons contatos na sociedade, pois há indicações de que prestasse serviços como “intermediário” para cavalheiros discretos em busca de boas (e belas) companhias masculinas, no que Serafina ganhava alguns guinéus. Ao final, Gordon foi condenado por roubo e Cooper/Princesa Serafina ganhou a causa (e as roupas).

Historicamente, seus registros terminam aqui. Não se sabe quando ou como ou onde morreu. Há registros anteriores, porém, nas memórias de um assaltante de estradas, James Dalton, escritas pouco antes de sua morte na forca em 1728, em que dá conta da ocasião em que busca abrigo numa molly house (o equivalente do século XVIII a um bar gay) e encontra a própria Princesa Serafina, que então trabalhava como açougueiro.

Nota: uma transcrição completa do julgamento, em inglês, pode ser lida aqui.

Grandes Trans do Iluminismo #2

Hannah Snell (1723-1792), soldado & marinheiro

Lutou e seduziu em três guerras, deu baixa com honras.

Desde menina, Hanna Snell brincava de soldado. Aos dez anos, organizando suas amiguinhas na “Companhia Jovem de Amazonas Snell”. Aos vinte e um, mudou-se para Londres e se casou, no que foi abandonada pelo marido após perder o primeiro bebê. Snell não hesitou: pegou o uniforme de soldado de seu cunhado, tomou-lhe o nome emprestado (‘James Gray”) e ingressou no exército.

Exército
Com o nome do cunhado, Snell teria participou da Batalha de Culloden, que derrotou os jacobitas escoceses em 1746. Alocada em Carlisle para manobras militares, seu superior a incumbiu com a missão de proxeneta: arranjar uma mulher para o sargento. Ao invés disso, ela própria seduziu a dama em questão, no que foi acusada pelo sargento de "fugir às suas obrigações". Ao descobrirem que era mulher, a acusação piorou: poi acusada de "tentar cometer um crime que a Natureza não colocou em seu poder a capacidade de cometer". Condenada a 500 chibatadas, Snell fugiu do exército, descobriu que o traste do seu marido fora preso e enforcado, e decidiu tentar a sorte na marinha.

Marinha
À bordo do navio de guerra Swallow em 1747, Snell viveu o que se pode considerar uma leva considerável de aventuras. Porém levantava suspeitas: seus colegas marinheiros ficavam consternados que ela não compartilhasse, digamos, dos mesmos apetites que acomete aos rapazes que ficam por tempo demais em navios com outros rapazes. A falta de barba e alguns trejeitos femininos lhe valeram o apelido de Molly Gray (molly era gíria para gays na Inglaterra Georgiana).

Ressentida que a considerassem efeminada, e para provar aos rapazes sua masculinidade, tão cedo o navio aportou em Lisboa, Hanna/James seduziu metade das mulheres do porto. Como aponta o pesquisador inglês Rictor Norton, criou um interessante paradoxo: um travesti feminino que precisou estabelecer sua “masculinidade” através de uma série de casos lésbicos.

Ilustração descrevendo as habilidades
militares de Hannah Snell, em 1750.
Civil
Em 1748, Hanna Snell/James Gray estava na Índia. Participou do cerco à Pondicherry, onde levou um tiro na virilha. Não podendo pedir ajuda, pois isso revelaria seu disfarce, ela própria arrancou a bala e cuidou da ferida. Dois anos mais tarde, de volta à Inglaterra, enfim relevou sua identidade aos colegas marujos, no que causou tremendo espanto. Contou sua própria história no livro The Female Soldier, e passou a se apresentar fazendo exercícios militares e cantando canções do mar. Deu baixa da marinha com honras e, coisa rara na época, conseguiu do governo a mesma pensão vitalícia garantida aos soldados homens.

Casou-se com homens mais duas vezes, comprou uma estalagem chamada The Female Warrior (“A Guerreira”), embora relatos divirjam, há quem diga que se chamava A Viúva Mascarada. Passou os últimos anos em companhia do filho, vindo a morrer com quase setenta anos, ao final do século XVIII.

Nota: a vida de Hannah Snell é contada em diversos livros, a bibliografia desse post sendo o livro Mother Clap’s Molly House: Gay Subcultures in England 1700-1830, de Rictor Norton. De modo incidental, a personagem se faz presente no meu próximo romance, Homens Elegantes.

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Grandes Trans do Iluminismo #1

Uma das partes mais bacanas da pesquisa é encontrar as pequenas figuras históricas que, de tão extraordinárias, parecem mais personagens de ficção do que figuras reais. Um dos temas centrais de Homens Elegantes foi o universo LGBT do século XVIII, o que me levou a descobrir algumas dessas pessoas extraordinárias, que inspiraram uma essa trinca de posts nesse blog.

Chevalier d'Éon (1728-1810), espiã & travesti

Caricatura do Chevalier d'Eon, publicada em 1777.
O que fez: enganou uma imperatriz, chantageou um rei e fez o primeiro wikileaks da História.

Em 1756, na Rússia, numa tentativa de conter a influência francesa, os ingleses bloquearam a fronteira entre a Prússia e a Rússia, deixando que somente mulheres e crianças passassem. Não foi um problema para Lady Léa de Beaumont, enviada para servir como dama de companhia e influenciar a Imperatriz Isabel da Rússia à favor da França.
Mas ninguém desconfiou que, em Paris, Lady Léa atendesse pelo nome de Charles-Geneviève-Louis-Auguste-André-Timothée d'Éon de Beaumont.
Desde cedo de feições andróginas e com talentos para mímica, foi feito membro do primeiro serviço secreto ocidental, o Secret du Roy, criado por Luís XV para executar ações à revelia de seus próprios ministros, e que incluia outras figuras notórias como Casanova e Beaumarchais.

Monsieur
Finda sua missão russa, e de volta à França, Beaumont reassumiu a identidade masculina, e foi como Éon de Beaumont que lutou na Guerra dos Sete Anos, como capitão de dragões. Ferido em batalha, ganhou o título de Chevalier e foi servir como embaixador interino da França em Londres, onde espalharam-se boatos de que, na verdade, ele era uma mulher disfarçada de homem. Apostas chegaram a ser feitas na Bolsa de Valores, mas o próprio Éon se recusou a revelar sua gênero verdadeiro, considerando que submeter-se à um exame seria indigno de sua pessoa.

Mas em Londres, Beaumont foi responsável pelo que talvez tenha sido o primeiro "wikileaks" da história: moderna. Preso na disputa entre duas facções rivais da política francesa, sobreviveu à uma tentativa de envenenamento por parte do novo embaixador. Como vingança, tornou publico documentos da embaixada, uma brecha de diplomacia nunca antes vista, que humilhou publicamente o embaixador seu rival. Chamado pelo rei Luís XV de volta à França, se recusou a ir, e a Inglaterra se recusou a deportá-lo. Tornou-se um pária entre os franceses, e uma celebridade entre os ingleses. Mas quando Luís XV cancelou sua pensão real, Beaumont ameaçou publicar na imprensa tudo o que sabia sobre o Secret du Roy, incluindo planos fracassados do rei da França de invadir a Inglaterra. Acuado, Luís XV cedeu, e Beaumont voltou a receber seus honorários e continuou a servi-lo como espião.

Retrato de Mademoiselle de Beaumont na
National Portrait Gallery, em Londres
Mademoiselle
Com a morte de Luís XV, Beaumont negociou seu retorno à França, anunciando que, na verdade, era uma mulher, criada pelo pai como homem para poder herdar a fortuna da família - e exigiu ser tratado como mulher a partir de então. O governo francês aceitou, exigindo em troca que a partir de então só se vestisse como mulher, garantindo inclusive uma nova mesada real para a aquisição das caras roupas femininas da época.

No final do século, com a Revolução Francesa, sua mesada foi cancelada e Mademoiselle de Beaumont mudou-se de volta a Londres, onde passou a participar de competições de esgrima e escreveu sua autobiografia, La Vie Militaire, politique, et privée de Mademoiselle d'Éon. Tal qual Barry Lyndon, foi ferida gravemente num de seus duelos, e passou os últimos dias de cama, vivendo na pobreza na companhia de uma velha amiga.
Somente após sua morte, uma junta médica examinou seu corpo, e constatou que Beaumont tinha “órgãos masculinos bem formados em todo aspecto”, ao mesmo tempo que “seios notoriamente volumosos”.

Nota: Sua história inspirou peças de teatro, mangas e animes. Em 2012 descobriu-se que um retrato na National Portrait Gallery de Londres, que julgava-se ser apenas o de uma mulher mais, hm, fortinha, era na realidade do Chevalier d’Éon.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Turismo, estética e política

Ilustração do Vitruvius Britannicus, or The British Architect,
do arquiteto escocês Colen Campbell, catalisador da estética
neoclássica na Inglaterra.
Para entender um período histórico, é preciso entender o zeitgeist da época, o que a sociedade de então enxergava como ideal, e como chegou a essa conclusão. Quase sempre é fruto do acaso: como quando o arquiteto do Rei de Nápoles, em 1738, foi preparar o terreno de um novo palácio próximo do Vesúvio e encontrou as ruínas de uma cidade romana.

A palavra turista vem do inglês tourist, que por sua vez surgiu da expressão tour, "volta". O turista é aquele que vai e volta de viagem (ao contrário daquele que morre no meio do caminho, como provavelmente ocorria com quem tentasse fazer isso antes do século 18 na Europa). Viajar com o objetivo de conhecer outras culturas para compará-las com a sua foi um conceito potencializado pelo Iluminismo, e pela descoberta, em 1738, das ruínas de Herculano. Alguns anos depois, seria encontrada Pompéia, e a moda pegou de vez. Pode parecer absurdo hoje, mas até então não se percebia uma clara distinção entre o que diferenciava a antiguidade grega da romana, por exemplo. Aquelas cidades enterradas eram um convite ao estudo e à descoberta.

Encontrar cidades romanas em tão perfeito estado de conservação, num século que já questionava abertamente o papel da Igreja na sociedade, criou uma ponte direta com o passado. Com um passado clássico que se acreditava puro, limpo e imaculado da corrupção papal. Passou a se acreditar que a educação de um cavalheiro só estaria completa após uma grande volta, ou Grand Tour, pela Europa, para entrar em contato com as culturas da Antiguidade Clássica, num século em que já se tornava um pouco mais seguro andar de um país ao outro sem ser morto no caminho. O resultado foram arquitetos, pintores e decorados descobrindo a arquitetura greco-romana e a trazendo de volta para seus países. Aos poucos, o barroco passou a ser visto como problemático: cheio de excessos decorativos e sobreposições sufocantes, num paralelo (na visão protestante) com os excessos supersticiosos dos países católicos, com suas adorações de santos, relíquias e amuletos. 

E no caso de uma Europa que está sempre em conflito interno, católicos contra protestantes, no momento em que alguém for decorar sua casa, está fazendo também uma escolha política. A Inglaterra possuía um pretendente católico ao trono, exilado na França. Portugal via os protestantes como hereges (mas tolerava os ingleses, que no geral dominavam o comércio). Ao investir numa fachada de inspiração neoclassica ou barroca, poderia se estar fazendo uma declaração de apoio a um lado ou outro.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Kubrick e a escova de dentes

Pesquisa após pesquisa, um livro puxando o outro, faz dez anos que vivo com metade da minha atenção focada no século 18 nos aspectos mais absurdos e aleatórios. Posso falar sobre a medicina da época, sobre o mercado editorial oficial e o clandestino, o paladar e os gostos culinários ou os hábitos de higiene. O que me fez perceber o quanto de dificuldade há, mesmo pessoas mais lidas tem de diferenciar, em termos de estéticas, costumes e cultura, um século do outro. Não bastasse isso, o descompasso do Brasil com o resto do mundo, sempre atrasado em termos sociais e culturais, torna tudo ainda mais confuso. Em tempos pré-internet, as gerações e os costumes pareciam mudar, em média, a cada trinta anos ou a cada troca de rei, dependendo do país. E no caso do Brasil, gosto de dizer que tudo o que ocorreu antes da chegada de D. João VI foi nosso equivalente à Idade Média. Assim, para visualizar melhor, costumo dizer que o século 18 começa com Piratas do Caribe, passa por As Ligações Perigosas, e termina na Revolução Francesa. Pense em homens de peruca e salto alto, e mulheres de saia gigantescas. Pesquisar as roupas é o aspecto mais fácil, uma vez que você descubra a iconografia correta a buscar. E o bom da pesquisa visual é que ela não traz junto os cheiros.

Porque para mim, se há algum truque em se escrever ficção histórica, é não pensar na higiene pessoal dos personagens. Os franceses inventaram o perfume por um motivo, e se o filme Perfume tem seus méritos, é mostrar a crueza da higiene da época. Mas, sendo meio germófobo, é o tipo de coisa que me perturba. Estou no campo da ficção, e quero que meu protagonista seja o mais limpo que sua época permita. Ainda é uma história de aventura de capa-e-espada, no final das contas, um subgênero no qual se permite - ou se deveria permitir, ao menos - certo grau de romantização quanto à galanteria e elegância do protagonista. Como nos antigos filmes de aventura, o espectador não quer imaginar que Errol Flynn ou Douglas Fairbanks tivessem bafo e dentes podres.

O que me fez chegar na escova de dentes. Determinar se meu protagonista escova os dentes me pareceu ao mesmo tempo absolutamente irrelevante e essencial, dentro dessa lógica. A depender do tipo de livro e da proposta que se quer desenvolver, não existe nenhuma razão para descrever atividades banais do cotidiano; ao mesmo tempo, num romance histórico, a descrição da rotina pode ser uma pincelada essencial na composição do quadro geral de hábitos e costumes de uma época que são tão diferentes do atual que beiram o alienígena. Lendo o livro Conversas com Kubrick descobri que o tópico da escova de dentes foi algo que o preocupou significativamente durante a pré-produção de Barry Lyndon (um livro e um filme que serviram de referência para o meu), a tal ponto que Kubrick chegou a encomendar pesquisas sobre o uso de escovas de dentes no século 18.

Não sei o que levou Kubrick atrás desse tópico, se compreender a qualidade da dentição da época foi um fator determinando na escalação do elenco ou coisa do tipo. Em Os dentes falsos de George Washington, Robert Darnton explica que dores de dentes não só são comuns na época, como assunto onipresente nas correspondências entre familiares e amigos - o século foi o auge do açúcar, do qual o Brasil, na sua sina de viver sempre no embalo de ciclos econômicos finitos, era o maior exportador do mundo. E o açúcar cobra seus custos. O próprio Washington perdeu seus dentes e precisou usar uma dentadura de madeira. Não é de se estranhar que Tiradentes fosse tão popular na Vila Rica do final daquele século, já que um bom tira-dentes era coisa difícil de se encontrar. E Carlota Joaquina, uns quarenta anos adiante, notoriamente perdeu os dentes e os trocou por substitutos de porcelana.

No final das contas, toda essa pesquisa para determinar o nível de saúde bucal do meu espadachim e formar, na cabeça do leitor, uma figura digna de um galã de cinema dos anos cinquenta (em que pese toda a carga pós-moderna intencional que isso possa acarretar). Pois que sim, algumas as pessoas escovavam os dentes no século XVIII, com escovas de cabo de madeira ou metal, e cerdas de pelo duro de camelo ou cavalo - a foto que ilustra este post é de uma escova de dentes inglesa data de 1794, por exemplo. Ainda que toda essa pesquisa e tempo gasto tenha se resumido, no meu livro, a não mais que uma rápida menção, feita de passagem, não maior que uma linha. É a vida.

quarta-feira, 13 de julho de 2016

A mulher que queria café em 1760

Ainda não conversei com algum outro autor que tenha se aventurado por romances históricos, para compartilhar desse tipo de susto ou dificuldade específica que volta e meia surge no caminho. Não imagino que seja excesso de zelo pela fidelidade histórica, mas é o tipo de pequeno detalhe que, quando surge, me faz querer arrancar os cabelos. No processo, primeiro eu estabeleço a ação - os personagens que precisam sair do ponto A e chegar no ponto B com o assunto X resolvido - e então, aos poucos, vou moldando a cena: onde se passa, como evolui o diálogo, como o narrador executa a transição de um momento ao outro sem parecer um corte abrupto.

A determinado momento, por exemplo, meus personagens se encontravam na rua e precisavam travar uma conversa que seria importante para o desenvolvimento da história. Como estamos em Londres na segunda metade do século XVIII, era de ouro das cafeterias, tenho um mapa da cidade feito por John Rocque em 1746 aberto no computador, uma lista de todas as cafeterias ativas na cidade na época, sei exatamente em que altura de Oxford Street meus personagens estão caminhando, então gasto um tempo maior do que deveria pesquisando em qual exata cafeteria meu trio de protagonistas iria se sentar para que eu ambientasse o diálogo.

Mas uma das personagens é mulher. E no meio do caminho, descubro que era muito, muito mal visto que uma mulher frequentasse cafeterias no século XVIII. Isso se dava pela cafeteria ser uma publick house tanto quanto os pubs ingleses, um espaço de convivência social e política onde se poderia tomar café à vontade e ler os jornais do dia por um preço fixo, onde era comum se interpelar os recém-chegados perguntando de onde vinha e que notícias trazia, enfim, a internet a da época. Por ser um ambiente abertamente político, tornava-se estritamente masculino, o tipo de ambiente onde uma mulher, dadas as circunstâncias, se tornaria mal falada por frequentar. A tal ponto as cafeterias roubavam os homens da convivência familiar, que clubes de esposas fizeram protestos publicos e na imprensa contra a popularidade desses estabelecimentos.

Maria (esse é o nome da minha personagem) precisou abrir mão do cafezinho em público, em nome da boa reputação de seu nome. Desloquei os personagens até o ambiente privado da residência de um deles, enquanto Maria lamentava as limitações impostas ao seu sexo na sua época. Mas por birra, reescrevi a personagem ao longo do livro como uma aficcionada por café, lamentando ter nascido na época errada.

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Queerlist 2.0

Sempre me sinto atrás dos outros nas minhas leituras. Consigo manter um ritmo de no máximo um livro por semana, e alguém sempre me pergunta se "já li o fulano ou a beltrana" e fico constrangido de dizer que não, ainda estou correndo atrás de todos os autores que eu devia ter descoberto e lido uns dez anos atrás, a julgar pelo ritmo do mundo (fui um leitor tardio).
Mas em algum momento há uns quatro ou cinco anos atrás, a essas alturas já nem lembro bem qual era o livro, eu me dei conta de que estava lendo basicamente sobre o mesmo tema o tempo todo, sempre o mesmo drama do homem branco hétero de classe média com casamento em crise, ("sentado em casa deprimido vendo a tinta secar na parede", como diz o Antonio Xerxenesky), com honrosa excessão ao Ian McEwan, que sempre mata ou desmembra alguém no meio do processo. Não é que não haja bons autores, mas a imposição de universalidade desses temas me cansa. Então me coloquei a vasculhar o google para montar uma lista de leitura mais focada em experiências com que eu pudesse me identificar. Montei o que eu chamo de "queerlist", uma lista de obras de ficção com (cacófato à vista) temática gay, que acabou moldando o que veio a ser o meu novo livro, "Homens Elegantes" (informe comercial: lançamento previsto para setembro deste ano, pela Rocco) e um blog, que andava meio abandonado até a pouco tempo, mas que estou retomando aos poucos - chamado, justamente, de Queerlist.
Essa lista foi moldada com base em pesquisas de internet e na leitura de um livro que para mim foi seminal, chamado A History of Gay Literature - The Male Tradition, de Gregory Woods (alguém traduza e publique, por favor. Eu me ofereço para traduzir). Com base nisso, e acompanhando o mercado com olhos atentos desde então, montei a seguinte lista:

Lidos, recomendados, ordenados em ordem histórica:

Clássicos
Fedro, de Platão
O Banquete, de Platão
Satyricon, de Petrônio

Idade Média
Decameron [historia de Pietro de Vinciolo, quinta noite], de Boccacio

Renascença
O Mercador de Veneza, William Shakespeare [teatro]
Otelo, de William Shakespeare [teatro]

Idade Moderna

Fanny Hill: Memórias de uma Mulher de Prazer, de John Cleland
Miss in Her Teens, de David Garrick [teatro]

Literatura Gótica
Vathek, de William Beckford * * *

Decadentismo
O outro lado da moeda (Teleny), Oscar Wilde * * *
A importância de ser Prudente, Oscar Wilde [teatro] * * * * *

Renascença Americana
Moby Dick, de Herman Melville * * * * *
Billy Budd, de Herman Melville * * * *

Espírito versus Físico (Anos 10-20)
Os Moedeiros-Falsos, André Gide * * * *
O pombo-torcaz, de André Gide * *

Modernistas
Maurice, de E.M. Forster * * * * *
Giovanni, de James Baldwin * * *
Mrs. Dalloway, de Virgínia Woolf *

Beats
Wild Boys: A Book of the Dead, de William Burroughs * * * *
Port of Saint, de William Burroughs * *
The Place of the Dead Road, de William Burroughs * * *
The Western Lands, de William Burroughs * *

Pós-Guerra (Anos 50-60)
O Auriga, de Mary Renault * * * * *
Confissões de uma Máscara, Yukio Mishima * * *
Um Homem Só, de Christopher Isherwood * * *
Bonequinha de Luxo, de Truman Capote * * * *

Anos 80
Um jovem americano (A Boy's Own Story), de Edmund White * * * *

Pós-Aids (Anos 90)
A Biblioteca da Piscina, de Alan Hollinghurst * * * * *
The Folding Star, de Alan Hollinghurst * * * *
The Spell, de Alan Hollinghurst * * * *
Uma casa no fim do mundo, de Michael Cunningham * * * *
As Horas, de Michael Cunningham * * * * *
Usina de Sonhos, de Michael Chabon * * * *

Anos 2000
A Linha da Beleza, de Alan Hollinghurst * * * * *
The Stranger's Child, de Alan Hollinghurst * * * *
Garotos Incríveis, de Michael Chabon * * * *
As Incríveis Aventuras de Kavalier & Clay, de Michael Chabon * * * * *
O Pacifista, de John Boyne * * *
Dois garotos se beijando, de David Levithan * * * * *

Literatura Brasileira
Naturalismo
Bom-Crioulo, de Adolfo Caminha * *

Anos 90

Os bêbados e os sonâmbulos, de Bernardo Carvalho * *
Teatro, de Bernardo Carvalho * * *

Anos 2000
Nove Noite, de Bernardo Carvalho * * * * *
Mongólia, de Bernardo Carvalho * * * *
O sol se põe em São Paulo, de Bernardo Carvalho * * * *
O Filho da Mãe, de Bernardo Carvalho * * * *
O Centésimo em Roma, de Max Mallman * * * *
Anjo das Ondas, de João Gilberto Noll * *
Uma leve simetria, de Rafael Bán Jacobsen * * * *
Loja de Conveniências, de Guilherme Smee * * * *
Luzes de emergência se acenderão automaticamente, de Luisa Geisler * * * *

Não Ficção
A History of Gay Literature: The Male Tradition, de Gregory Woods * * * * *

Para complementar essa lista, aqui vai outra, do site da Penguin: The essential LGBTQ library.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Tu carregas meu nome

"Munique, final dos anos 90. Certo dia, (meu colega) vem me contar que está atrás de um assunto difícil. Existe uma organização secreta chamada "Stille Hilfe", que ajuda velhos nazistas, como, por exemplo, uma certa senhora que outrora atendia pelo codinome 'Kobyla, a Égua', por causa de seu hábito de chutar mulheres e crianças com suas pesadas botas cheias de ferragens no campo de concentração de Majdanek. Essa deve ser uma organização perniciosa, disse meu colega. Nela, uma mulher chamada Gudrun Burwitz desempenhava um papel especial. Essa mulher que se empenhava tanto em favor de velhos criminosos era a filha de Heinrich Himmler".

Nota #1: trecho de "Tu carregas meu nome", de Norbert e Stephan Lebert, sobre os filhos e descendentes de criminosos de guerra nazistas (lista de leitura para os 70 anos do fim da II Guerra).

Nota #2: segundo a wikipedia, essa espécie de Hydra do mundo real existe até hoje, sob a desculpa de ser uma ONG de auxílio a veteranos de guerra. Gudrun Himmler vive até hoje.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Laranjas mecânicas


"Quanto à violência, era indispensável dar a ela um peso suficiente para que o problema moral fosse colocado de maneira lógica. Se Alex fosse "mau" de modo menos claro, a história se pareceria com um desses westerns que se dizem contra o linchamento. Mas, na verdade, porque se lincha um jovem inocente, a moral é definida da seguinte maneira: 'Não se deve linchar pessoas, pois elas poderiam ser inocentes'. Quando seria preciso dizer: "Ninguém deve ser linchado". para mostrar a ação do governo em todo o seu horror, devemos escolher como vítima alguém totalmente depravado, para que, quando for transformado pelo governo em um zumbi, você se dê conta de que é profundamente imoral fazer aquilo, mesmo com uma criatura daquelas. Se Alex não fosse a encarnação do Mal, seria fácil dizer: "Sim, claro, o governo está errado, pois ele não é tão mau assim".

Stanley Kubrick, Conversas com Kubrick (Cosac Naify, 2013)

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Crianças, não façam isso em casa


A morte de Georg Richmann, em ilustração do século XVIII
Em agosto de 1753, em São Petersburgo, o cientista russo Georg Richmann morreu ao ser atingido por um raio globular, quando conduzia um experimento inspirado no famoso caso de Benjamin Franklin com uma pandorga. Seu gravurista, Sokolaw, teve maior sorte - levou somente uma chicotada de aço eletrificado. Em uma carta enviada à Franklin pelo cientista russo Mikhail Lemonosov, diz-se que, quando Richmann foi analisado por um cirurgião:

"uma Veia foi aberta, do qual saiu apenas uma única Gota de Sangue. Não havia Pulso, nem o menor Sinal de nenhuma Convulsão em nenhuma Parte de seu Corpo. Na Parte superior de sua Nuca, onde os Cabelos começam a se mostrar, havia uma Marca oval, tão Grande quanto um Rublo, um pouco à Esquerda, onde o Sangue estava como se pressionado pelos Poros. (...) No Lado Esquerdo de seu Corpo, da Cintura ào Pescoço, haviam oito Pontos, vermelhos e azuis, além de outros, como aqueles causados por Pólvora. (,,,) Os dois Umbrais da Porta da Galeria foram rompidos de um Lado ao Outro, e, junto com a Porta, arremessados para dentro da Galeria".

O texto acima foi traduzido da carta original, respeitando o hábito do inglês do século XVIII de usar iniciais maiúsculas indiscriminadamente para todo substantivo. Uma versão obviamente ficcional do texto aparece como um dos interlúdios de Quatro Soldados. Contudo, o real, publicado na Pennsylvania Gazette do próprio Benjamin Franklin e cujo trecho reproduzi acima, pode ser lido na íntegra, em inglês, nesse link.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Para o caril, os adubos de praxe


Se tem uma coisa que aprendi lendo Ian Fleming, foi o quanto uma cena banal de conversa entre dois personagens pode ganhar vida se colocar comida entre eles, de preferência, com descrições detalhadas. Pode não servir para nada na história, e talvez justamente por isto, pelo caráter decorativo no meio da narrativa, falar de comida me pareceu uma forma sensorial muito pertinente de decoração literária.

Entradas
Em Quatro Soldados, há um capítulo onde dois de meus personagens tem uma discussão à mesa do almoço. Como a conversa se dá em Laguna, e não imagino que outra coisa se coma no litoral de Santa Catarina que não seja frutos do mar, determinei que comeriam camarões. Para minha sorte, em meio à pesquisa, descobri o livro Arte de Cozinha, editado em Portugal por Domingos Rodrigues em 1680, com sucessivas reedições ao longo do século XVIII entre 1732 e 1794. Rodrigues era o cozinheiro real de D. João IV e escreveu, oficialmente, o primeiro livro de receitas editado em português de que se tem ciência. “Todas as coisas que ensino experimentei por minha própria mão e as mais delas inventei por minha habilidade”, garante no prólogo.

Prato principal
Com isso, consegui definir um cardápio - peixe mourisco, acompanhado por um caril (curry) de camarões e arroz. Superada a barreira linguistica - "adubos pretos", descobri, refere-se à pimenta, noz moscada e cravo-da-índia - e métrica (um arrátel equivale, mais ou menos, a 459 gamas), meus personagens já podiam almoçar.
O efeito colateral disso: ao longo dos três meses em que trabalhei nessa parte - não por pesquisa, mas por efeito puramente somático, eu comi: camarão à milanesa, camarão à romana, camarão a alho e óleo, camarão no bafo, pizza de camarão, risoto de camarão, espaguete com camarão e, climax, uma sequência de camarões num restaurante no litoral de Santa Catarina. Concluo que escrever sobre comida dá fome.

Sobremesa
E então veio a sobremesa: o que se poderia comer de doces numa época anterior à refrigeração? Segundo o artigo Doces de ovos, doces de freiras, de Leila Mezan Algranti, a doçaria portuguesa do século XVIII desenvolvia-se principalmente nos conventos, onde se tinha acesso à ovos, leite, açúcar e amêndoas, principais ingredientes da época. Cruzando-se esses dados com o livro de Domingos Rodrigues, foi possível determinar alguns doces que poderiam ser oferecidos ao final da refeição entre Licurgo e o Andaluz, além de dar ao personagem um gosto particular por amêndoas confeitadas - gosto esse que acabou passando para mim.

Cafezinho?
Não há cafezinho, mas há, a certa altura, chocolate - seguindo a receita de Hans Sloane, vendida por boticários ingleses. Sloane, além de fundar o Museu Britânico, também contribuiu para a Humanidade com a idéia revolucionária, ao voltar de viagem da Jamaica, de colocar leite no chocolate (como sempre fizeram com o chá). Note-se que, até então, o chocolate era uma bebida preparada com água tal qual o café, e em barra, só cem anos depois. Para se ter uma idéia, deixo abaixo uma receita de , conforme consta do Artes de Cozinha de Domingos Rodrigues.
Chicolate
Ponhaõ-se a torrar cinco arrateis de cacáo, depois de torrado alimpem-no, e tirem lhe a casca ; pize-se muito bem, misture-se com trez arrateis de açúcar de pedra, e trez onças de canella fina peneirada, logo que eftiver tudo isto muito bem misturado, vá-fe moendo em numa pedra; como quem móe tintas, moasse segunda, e terceira vez, e corro estiver em massa, deitem-lhe oito bainilhas pizadas, e peneiradas, façaõ-le os bolos na fórma que quizerem.

Bibliografia:
Artes de Cozinha, de Domingos Rodrigues, disponível para download no site da Biblioteca Nacional de Portugal. O livro foi reeditado em 2008 pelo Senac-Rio, atualizado e adaptado por Flávia Quaresma.
Doces de ovos, doces de freiras, de Leila Mezan Algranti.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

A curta história do ∫ longo

Sempre tive uma relação de apego tipográfico com a letra “S” por motivos óbvios (é a inicial do meu nome) e afetivos de infância (o “S” do Super-Homem, o $ do Tio Patinhas, etc). Quando comecei a pesquisar obras setecentistas para o meu livro, acabei outra vez me debatendo com as particularidades da letra S em si, ao me confrontar com o S longo.



Letras, aparentemente, também saem de moda. Sem que houvesse um acordo ortográfico específico, em algum momento do século XIX impressores desistiram de usar o S longo, e não os culpo (o Diccionario da Lingua Brasileira de Luiz Maria da Silva Pinto, de 1832, já não registra mais o uso) . Na versão minúscula regular, a letra é praticamente idêntica ao f minúsculo (⌠ ), exceto pela ausência do “braço”, aquele raminho no meio que caracteriza o f. Em alguns casos, o S longo possui apenas o “braço” esquerdo, e não cruzado como no f, o que deixa ainda mais confuso (ou seja, alem de tudo, é maneta). Ao menos, na versão em itálico, ele fica mais parecida com o que se espera de um s ( ∫  ).

A aplicação do S longo é ainda mais confusa: a princípio, ele era utilizado quando a letra “s” minúscula vinha no começo ou no meio da palavra, mas não no fim (nesse caso, se usava o “s” minúsculo como ele é hoje). Na abertura da frase, valia o S maiúsculo de sempre.

O resultado disso é que, ao se ler um texto impresso no século XVIII, a impressão que eu tinha era que todos os narradores eram fanhos (uma impressão que passei para um dos meus personagens). Contudo, após alguns testes, acabei usando o S longo em alguns trechos muito específicos do livro (três, ao todo), em que se reproduz o português do século XVIII. Imagino que o leitor terá que ler esses trechos muito devagar, como uma criança sendo alfabetizada (ou, como eu fiz no começo, imaginar que o narrador ficou fanho, o que é sempre válido). Não sei dizer se algum livro em português usou o S longo nos últimos cem anos, mas é um risco bom de se correr.

Pode-se fazer um teste com esse trecho abaixo, retirado da abertura de Viagens d’Altina, escrito por Luiz Caetano de Campos – um livro que pode ser melhor descrito como a resposta portuguesa, ainda no século XVIII, para as Viagens de Gulliver.

terça-feira, 30 de julho de 2013

Triângulos rosas

A primeira metodologia estabelecida para a cura gay:

“‘O trabalho pesado tem o efeito mais salutar’ (...) ‘Aqueles que se tornaram homossexuais por inclinação’, isto é, ‘homens que por indulgência cansaram-se de mulheres e foram em busca de excitações novas para animar suas existências parasíticas’ – poderiam, também, misturando-se metáforas – ‘serem curados de seus vicios’.

O resultado:

"Porque não poderiam ou não queriam desistir de seus vícios, eles sabiam que nunca seriam libertados. O efeito deste peso psicológico, em homens cujas naturezas eram em grande parte delicadas e sensíveis, foi o de acelerar seu colapso físico.
Caso algum destes perdesse seu ‘amigo’ através de doença, ou talvez morte, então o fim já poderia ser vislumbrado. Muitos cometiam suicídio. Para tais naturezas, em tais circunstâncias, o ‘amigo’ significava tudo. Haviam muitas instancias de ‘amigos’ cometendo suicídio juntos".

Das memórias de Rudolf Hoess, Commandant of Auschwitz, citadas em A History of Gay Literature, de Gregory Woods (1998, Yale University Press, London - leitura em andamento).

P.S.: com metodologias atualizadas, o mesmo resultado.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

A tipografia nacional original


Um pequeno detalhe extra-literário, mas de importância estética crucial no meu livro - e que, creio, seja de interesse histórico para quem se interessa por tipografia - é que a fonte em que ele foi composto tem uma história muito bacana.

Frontispício do Relação de Entrada
Começamos do princípio. Em 1747, o impressor português Antônio Isidoro da Fonseca chegou ao Brasil por motivos obscuros (fugindo da Inquisição, dívidas, punição por crimes menores, entre muitas possibilidades). O certo é que por vantagens financeiras, certamente não foi (e não mudou muita coisa nos ultimos dois séculos e meio). A existência de uma oficina tipográfica era proibida no Brasil, o que não impediu Fonseca de criar uma oficina tipográfica no Rio de Janeiro, de onde saíram comprovadamente três obras. O primeiro foi A Relação da entrada que fez o Excelentíssimo e Reverendíssimo Bispo D. Fr. Antonio do Desterro Malheyro, Bispo do Rio de Janeiro […] (o título é enorme, à moda das obras setecentistas). Literariamente, a importância do impresso é nula. Mas o fato é que foi, até que se prove o contrário, o primeiro livro publicado no Brasil, mais de meio século antes da vinda da família real e do estabelecimento da imprensa régia.

Pule-se duzentos e cinquenta anos no tempo. O projeto Brasiliana USP conta com um pequeno grupo de trabalho entitulado "Resgates Tipográficos", que se dedica à recuperação de fontes tipográficas utilizadas em livros históricos e sua adaptação para uso nos computadores modernos. Dentro desse projeto, a arquiteta Laura Benseñor Lotuffo desenvolveu uma família de fontes tipográficas digitais inspirada na “Relação da entrada [...]” e nos tipos empregados por Isidoro da Fonseca, sob orientação da Professora Dra. Priscila Lenas Farias. A família chama-se, apropriadamete, "Isidora".

Segundo a própria Laura Lotuffo, em entrevista para o site do Brasiliana, "o caráter aparentemente improvisado e pouco refinado do impresso, despertaram um interesse investigativo sobre a produção da obra e a história do próprio Isidoro da Fonseca".

Esse improviso é visível ao longo de todo o livro. No entanto, alguns aspectos tipográficos se destacam; particularmente, o ‘til’ sobre o ‘O’ de ‘RELAÇAÕ’ que é, na realidade, um ‘J’ em corpo menor girado em 90 graus, e o cedilha deslocado abaixo de ‘C’, que se assemelha a um ‘s’ com a parte superior cortada. Esses elementos improvisados, assim como o aspecto geral do material impresso, traduzem ‘tipograficamente’ as circunstâncias nas quais foi impresso, de maneira clandestina, às pressas, numa oficina recém aberta e, provavelmente, cujo funcionamento ainda ocorria com um certo grau de improviso. Espero que o desenvolvimento da família ‘Isidora’, – o processo e não só o resultado final – tenha contribuído no sentido de resgatar esse ‘espírito’ que existiu no passado editorial brasileiro.

Com a publicação de Quatro Soldados, a fonte Isidora estará sendo aplicada pela primeira vez num livro de ficção.

Um artigo detalhado sobre Antonio Isidoro da Fonseca e o Relação de Entrada, de autoria da própria Laura Lotuffo, pode ser lido aqui.

Uma entrevista com Laura Lotufo sobre a criação da fonte Isidora, pode ser lida aqui.

"Relação de entrada que fez o excellentíssimo, e reverendíssimo sr. D. F. Antonio do Desterro Malheyros, bispo do Rio de Janeiro, em o primeiro dia deste prezente ano de 1747, havendo sido seis Annos Bispo do Reyno de Angola, donde por nomiação de Sua Magestade, e Bulla Pontifícia, foy promovido para esta Diocesi" pode ser lido aqui.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Lendo Hamlet em 1754

Em algum momento, defini que um personagem no meu livro leria Hamlet, e de certa forma isso serviria para conectar as quatro partes do livro. Não foi uma escolha aleatória, a primeira cena do terceiro ato tem uma relação direta com o conflito do personagem (e cuja chave de interpretação, tenho que confessar, só me chegou depois de muitos anos, lendo uma adaptação do Will Eisner).

Contudo, aí vieram problemas: meus personagens vivem no Brasil em 1754. e a primeira tradução de Hamlet para o português só veio mais de cem anos depois, em 1877, feita pelo rei Luis I de Portugal. Então, se eu disser que, muito provavelmente, não havia ninguém lendo Shakespeare no Brasil durante o século XVIII, embora uma afirmação arriscada, corre-se o risco de estar correto. A não ser que a pessoa fosse fluente em inglês, alemão, francês ou russo. O que é sempre possível, mas não para o meu personagem que, fica logo estabelecido, sabia somente português e espanhol (e a primeira tradução espanhola data de 1772, vinte anos após a época em que se passa minha história).

Que fazer? Inventar. Mas não de todo.

Pois para minha sorte, descobri que, em 1607 (Shakespeare ainda vivo, portanto), o navio inglês Red Dragon, com sua tripulação de 150 homens e comandado pelo capitão John Keeling, estava ancorado à costa de Serra Leoa. Enviou uma comitiva para saudar o rei africano local, um tal Boreas e, em troca, recebeu à bordo também a comitiva do rei. Para a surpresa dos ingleses em seus preconceitos raciais, Lucas Fernandes, emissário e cunhado do rei Borea, não só era fluente em português como extremamente eloquente e inteligente. Para entreter a comitiva africana, encenou-se à bordo do Red Dragon a tragédia de Hamlet, que o próprio Lucas Fernandes traduziu para o português, e que foi encenada pelos marinheiros ingleses. Da qualidade da encenação, não se tem registro. Do texto traduzido tampouco. O que se tem registro é que esta foi recém a segunda tradução de Shakespeare para outra lingua (a primeira foi em alemão), e a primeira em lingua portuguesa.

Inusitado. Contudo, já me bastou: meu personagem encontra, então, numa biblioteca perdida, um exemplar raro de um texto que, muito provavelmente, nunca foi publicada em livro. Mas ficção é invenção. Já para o trecho usado, que acaba por provocar uma revelação pessoal no personagem, acabei usando a versão de Luis I, de 1877, trocando algumas palavras por sinônimos mais próximos ao português do século XVIII e acrescentando todas as esquisitices típicas do português setecentista, incluindo-se nisso, o S longo (do qual falo noutra ocasião).

Sobre o Hamlet de Lucas Fernandez, o texto original que me serviu de base, descrevendo as condições e o contexto em que a peça foi encenada no Red Dragon, pode ser lido aqui e outro texto aqui.

Ainda no mesmo assunto, Jorge Furtado escreveu um texto sobre o Hamlet africano, no blog da Casa de Cinema de Porto Alegre - que pode ser lido aqui.

terça-feira, 16 de julho de 2013

Os mais vendidos no Brasil do século XVIII

Durante o tempo em que trabalhei no texto que, em menos de um mês agora, se converterá no meu novo livro, um aspecto importante que precisei definir foram as leituras dos meus personagens. Quatro Soldados começou planejado como uma história de aventuras, e no decorrer do processo, se tornou uma aventura sobre leitores - o que meus personagens liam moldava não só as relações que tinham entre si, mas o modo como reagiam ao mundo à sua volta. E, no final das contas, as leituras de cada um era um definidor de suas personalidades.

Problema número um: a história se passa no Brasil na década de 1750. O que se lia naquela época? Resposta:um grande agradecimento meu à um projeto de pesquisa da UNICAMP e da FAPESP entitulado Caminhos do Romance, e em especial artigos escritos pela professora Márcia Abreu sobre o tema (como esse aqui).

O fato é que, até meados de 1760, a remessa de livros ao Brasil (não eram permitidas gráficas na Colônia) era supervisionada pela Inquisição. Até o momento em que, para tirar o controle da Igreja sobre os livros, o Marquês do Pombal criou a Real Mesa Censória, que se encarregava, entre outras coisas, de autorizar a impressão e tradução de livros, e e remessa dos mesmos às colônias. E os documentos com esses pedidos, descobri através da pesquisa da profa. Abreu, existem até hoje no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Portugal.

Isso me possibilitou determinar, ao menos, que tipo de leituras poderiam chegar às mãos dos meus personagens, acrescentando-se uma certa dose de liberdades (as quais falarei num post seguinte).

Best-sellers
Títulos mais solicitados em requisições destinadas ao Rio de Janeiro, c
onservadas nos fundos da Real Mesa Censória e relativas ao período compreendido entre 1769 e 1807

1º (38 pedidos)
Les Aventures de Telêmaque, de François de Salignac de la Mothe-Fênelon

2º (24 pedidos)
Night Toughts on Life, Death and Immortality, de Edward Young

3º (22 pedidos)
Selecta Latina Sermonis exemplaria e scriptoribus probatissimis, Pierre Chompré

4º (21 pedidos)
Histoire de Gil Blas de Santillane (Gil Brás de Santilhana), de Alain René Le Sage

5º (19 pedidos)
Le Voyageur François ou la connoisance de l'ancien et du noveau monde, Joseph de Laporte

6º (18 pedidos)
Meditations and Contemplations, James Harvey
The Paradise Lost, John Milton

7º (15 pedidos)
Caroline de Litchfield, Baronesa Isabelle de Montolieu
El Ingenioso Hidalgo Don Quijote de La Mancha, Miguel de Cervantes
História do Imperador Carlos Magno de doze pares de França, anônimo
Lances de Ventura acasos da desgraça e heroísmos da Virtude, D. Felix Moreno de Monroy y Ros
Rimas, Manuel Maria Barbosa du Bocage

8º (13 pedidos)
Viagens de Altina nas cidades mais cultas da Europa e nas principais povoações dos Balinos, povos desconhecidos de todo o mundo, Luis Caetano de Campos

9º (12 pedidos)
Delli viaggi di Enrico Wanton alle terre incognite Australi ed al paese delle scimie, né quali si apiegano il carattere, il costumi, le scienze e la polizia di quegli straordinari abitanti, Zaccaria Seriman
O Feliz independente do mundo e da fortuna, ou arte de viver contente em quaisquer trabalhos da vida, Padre Theodoro de Almeida.

10º (11 pedidos)
Fábulas, Esopo
Obras, Luis de Camões
Rimas, João Xavier de Mattos

Traduções
Note-se que a maior parte são em língua estrangeira: 6 em francês (a Selecta Latini, apesar do titulo, era elaborada em francês), 3 em inglês, 1 em espanhol, 1 em grego e 1 em italiano, contra 6 em português (não creio que a proporção tenha mudado muito nos últimos 200 anos). Contudo, é pouco provável que os cariocas do século XVIII fossem poliglotas, já que Abreu lembra que muitos dos títulos estrangeiros solicitados já possuiam traduções ao português. No caso do Aventuras de Telêmaco, até mais de uma, incluindo a edição em que o tradutor achou que faltava o personagem se casar no final, e ele próprio compôs um novo desfecho para a obra.

Tiragem
Mesmo que se considere que cada pedido inclui uma quantidade indefinida de livros (a maioria dos pedidos eram feitos por livreiros), parecem poucos. Contudo, deve-se levar em conta os números da época: um best-seller incontestável como A Nova Heloísa, de Rousseau, teve uma tiragem recorde de 4000 exemplares. O normal, para um livro bem sucedido, era ter uma tiragem média de 1000 exemplares. Quando foi publicado, em 1769, O Uraguay, de Basília da Gama, segundo dados citados na pesquisa da profa. Abreu, teve uma tiragem considerada enorme, de 1036 exemplares.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Gatsby

Outra confissão: Gatsby, o livro, não me impressionou muito, embora tenha óbvios méritos que justifiquem a aura em torno de si. É um bom livro, que não teve ressonância interna em mim, como outros livros, maiores ou menores, tiveram. Isso, dentro do contexto "Grande Romance Americano", (se eu entender que, se "Grande Romance Americano" fosse um gênero específico, imagino que necessariamente deveria: a) se passar na primeira metade do século XX, quando os EUA se tornaram a potência que são hoje, e b) ser sobre dinheiro - ou a falta de -, sobre sucesso pessoal e a visão da cultura americana de si mesma como "terra da oportunidade").

Assim, assisti à adaptação do Baz Luhrman com um espírito aberto. Venha o que vier. Mudem o que quiser, que não me importo muito, apenas me mostre um bom filme. E, rapaz, que canseira. Depois de uns trinta ou quarenta minutos (talvez fosse menos, mas a sensação era interminável) do que me pareceu um videoclipe hiperativo de O Aviador versão Lady Gaga, se essa fusão fosse dirigida pelo David La Chapelle, me virei para minha amiga e disse: é um carro desgovernado que vai bater, mas eu quero ver ele bater. E ele bate, e explode, no momento que Jay Gatsby entra em cena, com fogos de artifício inclusos. Eu teria abandonado o cinema se, confesso, o efeito caótico não fosse também hipnótico. Depois disso, tem-se a impressão que o filme começa de fato quando Gatsby encontra Daisy no meio das flores, e então tem-se um filme quase normal, até aceitável dentro do que se pode esperar de Baz Luhrman.

A escalação do elenco, ao menos, faz jus aos personagens. Mas até chegar nessa conclusão, eu já estava bem cansado.


terça-feira, 11 de junho de 2013

Morel

Juro que tentei, com toda boa vontade, gostar da Invenção de Morel, mas não deu. O problema pra mim não foi o tanto que o protagonista é obtuso, mas a voz dele como narrador, cheia de exageros histéricos e pedantes que parecem uma paródia do estilo do Borges (e que já vi refletida no estilo de alguns autores nacionais, com o mesmo resultado irritante). Não desisto fácil, e vou dar mais uma chance ao Bioy Casares no Histórias Fantásticas - contudo, no Tetris da minha pilha de livros pra ler, foi lá pra baixo.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Leituras de 2012

Ainda que a utilidade de se postar uma lista de leituras anuais me escape, e todo ano me veja fazendo a mesma pergunta, sempre há a possibilidade de que alguém venha me dizer "vi que tu leu o livro tal, o que achou?", e falar dos livros lidos é um dos poucos assuntos no qual me sinto suficientemente à vontade.

Contudo, o gosto de uma pessoa se define tanto pelo que ela gosta quanto pelo que ela detesta, então sempre aviso: aqui quem fala é alguém que não suporta a metalinguagem masturbatória do Paul Auster (tendo lido apenas a Trilogia), acha Lovecraft de um pedantismo ininteligível (contudo, adorei A cor que caiu do espaço) e ainda não entendeu o motivo de tanto frisson em cima de Bonsai.Segue a lista.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Batido, não mexido


 Minha obsessão jamesbondiana do semestre passado (nascida, em grande parte, de uma fascinação de infância pelo personagem alimentada pelo... Pateta), me tornou, ao que parece, numa referência em James Bond, ao menos o literário. O que resultou numa pequena contribuição para o especial sobre os cinquenta anos do agente com permissão para matar (e um cartão corporativo sem limites) que saiu hoje no Segundo Caderno de Zero Hora, escrito pelo jornalista Daniel Feix (que pode ser lida aqui).
Como este blog foi citado na matéria, e na possibilidade de alguém vir dar por aqui neste pedaço cinza-chumbo de espaço virtual à procura dos textos, aqui uma uma recapitulação do tema em forma de índice.
Leitores interessados em Bond devem atentar ao detalhe de que nem todos os livros possuem edições recentes em português (a maioria não, aliás), e creio que ao menos dois contos permanecem inéditos até hoje. Não é esnobismo meu, mas tendo em vista que mesmo algumas dessas edições recentes só reimprimem traduções já bem antigas, a obra de Fleming (como, claro, qualquer outra), é melhor aproveitada se lida no original em inglês.
Os livros seguem a ordem de publicação, não a ordem em que os li e foram postados nesse blog.

1. Cassino Royale
2. Live and Let Die
3. Moonraker (o melhor da série, na minha opinião)
4. Diamonds are Forever
5. From Russia with Love
6. Dr. No
7. Goldfinger
8. For your eyes only (que reúne os contos From a View to a Kill, For Your Eyes Only, Risico, The Hildebrand Rarity e Quantum of Solace).
9. Thunderball
10. The Spy who Loved Me
11. On Her Majesty Secret Service
12. You Only Live Twice
13. The Man with the Golden Gun
14. Octopussy and The Living Daylights (que reúne os contos Octopussy, The Property of a Lady, The Living Daylights e 007 in New York).
The James Bond Dossier, de Kingsley Amis, e outras efemérides.

P.S.: sendo também bibliófilo, colecionar essas lindas edições do centenário de Ian Fleming, publicadas pela Penguin em 2008, foi uma motivação a mais na leitura, embora ainda me faltem quatro livros para que a coleção se complete (o que, talvez, não aconteça tão cedo,já que desde que a Penguin perdeu os direitos sobre a série, esse ano, e a edição saiu de catálogo, eles tem se tornado particularmente caros).

P.S.: para aficcionados, recomendo darem uma olhada em Bond Lifestyle, site que reúne as referências de todas as bebidas, carros, relógios, roupas e demais pequenos e grandes luxos que o personagem utiliza, tanto nos livros quanto nos filmes.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Queer list

A certa altura começo a me dar conta que a grande maioria dos protagonistas dos romances que leio são homens ou mulheres héteros - mesmo quando a História, os biógrafos e as más-linguas já tiraram o autor do armário algum tempo - então fica-se nessa ausência de uma voz literária com que se possa identificar num nível mais visceral. Digo, ok, Vathek do Wiliiam Bedford (chatíssimo) consta sempre nos, hm, anais da literatura gay por associação e metáfora, e o Billy Budd do Melville é um (excelente) tratado sobre homoerotismo reprimido e repressor, que só não entra na listinha abaixo por não ser um livro abertamente gay (e nem vamos entrar na questão do “capítulo de Ishmael e Queequeg na cama” em Moby Dick). Mas entre o Satyricon e Wilde há esse grande silêncio de mensagens em código ou decadentismo intencional, que no geral acho meio frustrante, e após isso, tudo parece meio moderno demais para ser canônico. Como leitor fico meio perdido. Amigos e conhecidos comentaram recentemente comigo que tem a mesma dificuldade de ir atrás desse tipo de leitura, então talvez a listinha abaixo esteja cumprindo um serviço de utilidade pública.

A primeira dificuldade de compilar uma “lista de leitura gay” é que, se for pesquisar em sites de livrarias o que surge é um catatau de subliteratura romântica barata ao estilo Júlia/Bianca/Sabrina. Outro problema é a questão de gueto: no momento em que se aplica uma etiqueta, cria-se uma noção de gênero que parece mais diminuir do que engrandecer uma obra, como se ela só pudesse ser entendida sob aquela ótica (um problema comum, imagino, com ficção científica, mas isso é outro assunto). Ou seja, essa listinha de leitura resumes-e a reunir livros que tenham um tema em comum, como, por exemplo “livros com dinossauros” (aliás, uma outra obsessão sazonal minha, que já passou).

Então, para montar essa seleção, que venho lendo aos poucos desde o ano passado (nem só de James Bond vive o homem, afinal), me vali de muita wikipédia, sugestões de amigos, e folheando alguns livros aleatórios encontrados na Amazon, que se propõem a compilar versões mais extensas dessa lista. A lista segue por ordem alfabética de nome do autor).

• Abel Botelho, O Barão de Lavos, (1891). Não li ainda (não encontro edição). Em tese, é o primeiro romance em lingua portuguesa sobre homossexualidade (já que precede O Bom Crioulo em quatro anos), ainda que o faça no âmbito de doença.

• Adolfo Caminha, Bom-Crioulo (1895). Não li ainda. Considerando que a intenção do autor ao escrever um livro sobre marinheiros gays era ofender a marinha brasileira, está longe de ser exatamente um must-read, exceto talvez pelo valor histórico.

• Allan Hollinghurst, A Linha da Beleza (The Line of Beauty, 2004). Lido. Descobri esse livro naquele 1001 Livros para Ler antes de Morrer, que com todas as suas falhas como lista, ao menos serve para se descobrir coisas novas. Já falei desse livro numa sugestão de leitura pro rascunho, o final me destruiu como poucos livros conseguiram fazer (book hangover tremenda), e acrescento que, se houvesse prova para tirar habilitação gay (ou alvará da prefeitura, como já disse um conhecido), esse livro seria das leituras obrigatórias - ao menos, para fantasiar que a Londres dos anos oitenta pré-Aids foi o melhor dos tempos. Próxima leitura do autor deve ser A Biblioteca da Piscina (The Swimming-Pool Library, 1983) livro anterior dele, do qual não sei o que esperar.

• André Gide, O Pombo-Torcaz (Le Ramier, 2002). Lido. Talvez eu devesse me impor a leitura de Os Moedeiros Falsos, mas ando preguiçoso com calhamaços e, no mais, esse conto curtinho vale não só pelo lirismo com que Gide descreve uma transa (o “pombo-torcaz” do título é o rapaz com que Gide passou uma noite de 1907 e com o qual só lhe faltou atingir o nirvana, tendo o apelidado assim porque arrulhava como um pombo após o sexo), mas também pelos apêndices, na troca de cartas entre Gide e um amigo que mostra como o autor, ainda na primeira metade do século XX, aceitava-se sem traumas.

• Bernardo Carvalho, O Filho da Mãe (2009). Lido. Na prática, quase todo livro do Bernardo Carvalho poderia entrar nessa lista (e já li quase todos), já que personagem enrustido e identidades espelhadas são elementos comuns, mas talvez pela metáfora entre duplos e quimeras (ou por finalmente alguém explorar uma história na onipresença de soldados russos em filmes pornôs) tenho vários motivos para fazer desse livro um dos meus favoritos.

• Christopher Isherwood, Um Homem Só (A Single Man, 1964). Lido. Tenho que admitir que só fui atrás  depois de ver o filme - que, aliás, acho melhor que o livro, por mais que goste do livro (aqui, um trecho). Aliás, por mais fiel que a adaptação seja, ambos tem tons bem distintos (George é um tanto mais misantropo no livro, e o tom geral, mais pessimista). Mas pretendo ir atrás de mais coisa dele, especialente depois de ver a Cláudia Raia no Cabaret (adaptado do Berlin Stories, que deve ser livro seguinte dele que lerei).

• Edmund White, Um Jovem Americano (A Boy’s Own Story, 1982). Não li ainda, segue na fila, recomendado pelos 1001 livros para ler antes de morrer.

• James Baldwin, Giovanni (Giovanni’s Room, 1956). Não li ainda, segue na fila. Carol Bensimon me falou muito bem desse aqui.

• Jean Cocteau, O livro branco (Le livre blanc, 1928). Não lido ainda. Nunca lancado no Brasil, me deixa uma dúvida: ler na tradução para o inglês, ou para o português de Portugal?

• Jean Genet. Nossa Senhora das Flores (Notre Dame des Fleurs, 1942) ou Querelle de Brest (Querelle du Brest, 1953). Estou em dúvida entre qual dos dois começar. Gosto muito do filme do Fassbinder, mas por outro lado, talvez o Nossa Senhora já me foi recomendado por amigos. Uma hora decido.

• Oscar Wilde, Teleny, ou o Reverso da Medalha (Teleny, or, The Reverse of the Medal, 1893). Não li ainda. Não tinha interesse, me parecia chato por motivos completamente supérfluos, mas um amigo me garantir que não é, e entrou para a lista.

• William S. Burroughs, The Wild Boys: a book of the dead (1971). Lido. É complicado tentar explicar esse livro, no tanto que eu gosto muito dele, e no tanto que não tenho certeza se entendi alguma coisa. Mal há uma história conectando as muitas vinhetas aleatórias, mas se há, seria mais ou menos isso: num mundo pós-apocalíptico, um movimento revolucionário de adolescentes-gays-meio-selvagens-que-transam-feito-bichos pretende derrubar a civilização ocidental, ou o pouco que resta dela vivendo em grandes cidades-estado voltadas ao hedonismo. A isto mistura-se a história de um garoto nos anos 30 seduzido para o movimento, e um vírus que espalha-se através de uma imagem. A música do Duran Duran (e o clipe) é inspirada nesse livro, se servir de referência. A história continua, ainda mais confusa, em Port of Saints (1973), que não gostei tanto, e há certa relação vaga com The Place of Dead Roads (1983), que começou interessante e terminou sem sentido (foi quando desisti de Burroughs por um longo tempo).

• Yukio Mishima, Confissões de uma Máscara (Kamen no Kokuhaku, 1949). Mishima foi uma sugestão do Rafael Jacobsen, e a história do adolescente japonês que, no meio da Segunda Guerra, vê surgir uma distancia cada vez maior entre desejos reprimidos e a máscara social que usa, parece ser meio biográfica. É um livro bonito e sensível, ao mesmo tempo que é denso e pesado (as fantasias sádicas do narrador beiram a psicose), mas por mais que eu tenha gostado, não me atraiu para o resto da obra do Mishima.

Essa lista está sujeita a acréscimos futuros, e sugestões serão bem-vindas.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Encerrando Bond

Em acréscimo aos catorze livros da série, fez parte da minha maratona também a leitura de The James Bond Dossier. Um ltanto raro, que Kingsley Amis escreveu em 1965 movido em parte por sua admiração da obra de Fleming, e em parte como provocação acadêmica - Amis queria dar o mesmo tratamento sério que a academia geralmente dedicava à Alta Literatura para uma série de livros considerados como literatura comercial e menor.
O livro se destaca pelo tom bem-humorado, analítico e de mente aberta com que aborda a obra de Fleming, seus pontos fracos e seus pouco reconhecidos pontos-fortes. Muito das minhas opiniões sobre os méritos dos livros que expus nos post anteriores foram, de certa forma, direcionadas pela visão aberta por Amis (alguém já publicou por aqui Lucky Jim?).
Os capítulos dividem a análise em torno dos principais totens da série: as relações de Bond com as mulheres, o chauvinismo de Fleming, o padrão de comportamento dos vilões, comida e bebida, o efeito Fleming” enquanto estilo, com o uso de informações precisas sobre temas obscuros , a relação pátria-e-pai com M.
Há ainda três apêndices avaliando temas : a ficção científica em James Bond, o sadismo, e o escapismo, alem de um gráfico que planifica treze livros da série (o décimo-quarto, Octopussy and the Living Daylights, não havia sido publicado ainda) em categorias: vilão, mocinha, lugares visitados, capangas, plano maligno e pontos altos narrativos. Até onde sei, esse livro não teve edição em português.

Abaixo, encerrando essa série de posts,  seguem algumas listagens e coisas curiosas que descobri nos livros.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

O último Bond

Em onze de agosto de 1964, logo após o almoço, Ian Fleming sofre um ataque cardíaco e morre, deixando completo no texto, mas não na revisão, o original de O Homem do Revólver de Ouro (como foi publicado no Brasil originalmente). Há quem diga que falta no livro muito dos detalhes que Fleming tipicamente acrescentava na segunda revisão  - na época, chegou-se a questionar quanto do livro seria, de fato, de autoria de Fleming. Da minha parte, posso afirmar com segurança – eu li treze livros, não imagino que mais seja preciso que isso – de que se trata de um Fleming legítimo do começo ao fim. Se há algo de incompleto, é no avanço brusco que a trama dá de tempos em tempos, as prováveis lacunas que Fleming deixou para preencher mais tarde, mas que, ao menos, tem a vantagem de dar ao livro um tom dinâmico..

The Man with the Golden Gun
O plot: dando continuidade de onde o livro anterior parou, um James Bond desmemoriado chega à Londres após ter sofrido lavagem cerebral da KGB e tenta assassinar M, mas é impedido pelo aparato de segurança do MI6. Capturado e curado, recebe como missão para se redimir ir até a Jamaica. Lá, deve localizar e assassinar Francisco “Pistolas” Scaramanga, o Homem do Revólver de Ouro (e de três tetas), um mercenário cubano a serviço da Rússia com um plano para desestabilizar a região, através da sabotagem das plantações de açúcar do Caribe.
 
O livro: como dito, não há o que não seja um legítimo Fleming – na ação, na ambientação, nos detalhes fetichistas. Parece que, após perder o ritmo e quase flertar com a inércia em You Only Live Twice, Fleming decidiu reunir todos os elementos mais totêmicos de 007 num único livro – o que, dada as circunstâncias, dá ao personagem um final adequado, como uma grande festa onde tudo se reúnem. Os escritórios do MI6, o clube Blades, a recorrente Jamaica, e todos os coadjuvantes regulares dos treze livros anteriores batem ponto com participações ou citações: o amigo Felix Leiter, o Chefe-de-Pessoal Bill Tanner, o psicólogo sir James Molony, o maitre Porterfield, a governanta May, a secretária Moneypenny e a assistente Mary Goodnight, aqui promovido à bond-girl. Finalmente descobrimos o nome completo de M (almirante Miles Messervy) e o destino de Honey Rider após Dr. No (casada com um médico, dois filhos).

terça-feira, 24 de julho de 2012

Bonds estranhos

O que une Só Se Vive Duas Vezes (que no Brasil nunca teve esse título, sendo editado como A Morte no Japão) e O Espião que me Amava é, talvez, a tentativa de Ian Fleming de experimentar com a formula criada por ele próprio, e em alguns momentos fugindo completamente dela, fazendo do primeiro mais um guia de viagens e costumes do que propriamente uma aventura, e do segundo uma trama policial noir com uma participação mínima de Bond. Em ambos os livros, o resultado é um pouco confuso e não de todo satisfatório (em especial no primeiro), do tipo que eu não recomendaria para um leitor iniciante dos livros de Bond, mas acréscimos bacanas para os já iniciados.

terça-feira, 17 de julho de 2012

Bonds menores

Quando decidi ler a obra de Ian Fleming, escolhi deixar de fora aqueles que, tanto pelos comentários no GoodReads quanto à época da publicação original, fossem considerados os mais fracos ou menos interessantes. O que não aconteceu, tornou-se vício e paciência, decidi ir até o fim. Se Viva e Deixe Morrer e Os Diamantes são Eternos tem algo em comum, além de ambos se ambientarem em solo americano, é que a falha de um é o mérito no outro, e se o primeiro traz um vilão memorável numa trama mal costurada, o segundo traz uma boa trama  que carece de vilões melhores. Ainda assim ambos possuem um bom punhado de passagens interessantes, onde o típico "efeito Flemingk é utilizado com êxito.


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